Como a TCC – Terapia Cognitivo Comportamental alavancou meu processo de cura

Terapia Cognitiva é um sistema de psicoterapia, proposto e desenvolvido pelo Dr. Aaron Beck e seus colaboradores, que integra um modelo cognitivo de psicopatologia e um conjunto de técnicas e estratégias terapêuticas baseadas diretamente nesse modelo. Características que a distinguem de outras formas de psicoterapia são o tempo curto e limitado e a eficácia comprovada através de estudos empíricos, em várias áreas de transtornos emocionais, como depressão, transtornos de ansiedade (transtorno de ansiedade generalizada, fobias, pânico, hipocondria, transtorno obsessivo-compulsivo), dependência química, transtornos alimentares, dificuldades interpessoais (terapia de casal e de família), transtornos psiquiátricos, etc., para adultos, crianças e adolescentes.

(uma versão reduzida deste texto foi publicado no grupo de apoio do Facebook – Misofonia – Síndrome em 25/11/2019)

Dois princípios da TCC foram fundamentais para que eu mudasse minhas atitudes e estratégias e com isso, fosse reduzindo progressivamente, em mim, os efeitos da Misofonia.

Como fui ajudado:

1 – PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS

Estamos constantemente avaliando e julgando e assimilando tudo que nos acontece como, por exemplo, eventos estressantes, percepções, sensações corporais e a memória destes, para determinar o que é importante ou não para nós. Esse processo chamamos de –aprendizado cognitivo– que nos causa emoções e vamos reagindo e nos comportando de acordo com o que assimilamos. Mas nós também passamos a reagir a novos eventos ou na repetição destes e já com o aprendizado anterior, realimentando de uma forma que nem percebemos e que passam a reforçar o efeito das emoções e comportamentos. Ocorre que temos um grande número de pensamentos que fazem parte desse fluxo de processamento e que surgem de forma tão rápida que nem os percebemos e eles atuam neste processo de aprendizado cognitivo, à medida que vamos avaliando o significado dos acontecimentos.

Em pessoas com algum tipo de transtorno psiquiátrico com depressão ou ansiedade, frequentemente vivenciam inundações de pensamentos automáticos que são desadaptativos ou distorcidos e podem gerar reações emocionais dolorosas e comportamento disfuncional.

2 – ERROS COGNITIVOS OU DISTORÇÕES COGNITIVAS

Existem equívocos na lógica dos pensamentos automáticos e outras cognições e esses equívocos podem (e vão) acontecer em todas as pessoas, mas nas com transtornos emocionais, são mais característicos. Estes precisam ser identificados pois atuam de forma patológica no processamento de informações, de forma desadaptativa ou distorcida.

Vou citar algumas distorções que podemos vivenciar e que estavam presentes no meu dia a dia, na forma que eu lidava com a Misofonia:

Abstração Seletiva

Chega-se a uma conclusão depois de examinar apenas uma pequena porção das informações disponíveis. Os dados importantes são descartados ou ignorados, a fim de confirmar a visão tendenciosa que a pessoa tem da situação.

No meu caso, não importava o motivo das pessoas, sempre achava que elas queriam me prejudicar ou me desprezavam ou que não me respeitavam, então eu as odiava quando produziam sons que me afetavam.

Maximização e minimização

A relevância de um atributo, evento ou sensação é exagerada ou minimizada.

No meu caso, sofria antecipadamente os efeitos da Misofonia antes mesmo de alguém produzir os sons, só ao vê-la segurando algum alimento ou realizando visualmente o ato de mastigar eu já ficava alterado.

Supergeneralização

Chega-se a uma conclusão sobre um acontecimento isolado e, então, a conclusão é estendida de maneira ilógica a amplas áreas do funcionamento.

No meu caso, eu assumi que todas as pessoas que realizavam trabalhos braçais assobiavam, portanto eu tinha que evitar ou combater a presença delas próximo de mim e não ser amigável com essas pessoas, mesmo que elas nem assobiassem.

EIS COMO A TCC ME AJUDOU

Quando iniciei o estudo da TCC encontrei o modelo básico da Terapia cognitivo-comportamental (figura 1) que pode ser comparado com um tipo de Diagrama Sistêmico (SENGE, 2003) que propus para representar um Modelo Dinâmico da Misofonia, baseado na minha própria experiência, utilizando um causal loop diagram (figura 2). O diagrama sugere que depois de iniciada a Misofonia, eu entrava num ciclo onde cada vez mais meus sintomas pioravam por causa da forma como eu enfrentava os sintomas, direcionando todos os sentimentos negativos contra quem os produzia.

É um diagrama experimental que captura a percepção que tenho sobre a evolução da Misofonia na minha história de vida. Eu cheguei a publicar este diagrama no grupo de apoio Misofonia – Síndrome com o título Ciclo da Misofonia que piora com o tempo.

Modelo cognitivo-comportamental básico
Figura 1 -Modelo cognitivo-comportamental básico
Figura 2 -  causal loop diagram  proposto 
para um Modelo Dinâmico da Misofonia em mim
Figura 2 – causal loop diagram proposto
para um Modelo Dinâmico da Misofonia,
conforme fui percebendo em mim

Então com o conhecimento de TCC e o autoconhecimento que fui amadurecendo sobre os efeitos da Misofonia em mim, fui me aprofundando em como utilizar métodos de TCC para me ajudar.

“Ao implementar métodos de TCC para reduzir erros cognitivos, os terapeutas normalmente ensinam os pacientes que o objetivo mais importante é simplesmente reconhecer que se está cometendo erros cognitivos”

(…)

“Algumas das intervenções mais importantes que você aprenderá são ativação comportamental, exposição hierárquica (dessensibilização sistemática), prescrição gradual de tarefas, programação de atividades e eventos prazerosos, treinamento de respiração e treinamento de relaxamento. Essas técnicas podem servir como ferramentas poderosas para ajudar a reduzir sintomas e promover mudanças positivas.”

Jesse H. Wright, Monica R. Basco & Michael E. Thase, 2008


Então passei a identificar esses pensamentos automáticos. No início foi estranho e até engraçado pois eu parava para “pensar o que estava pensando” em diversas situações para identificar não só as 3 distorções citadas acima, mas várias outras. Fazer isso logo após ser afetado por um som gatilho não é fácil, mas é possível. Para tornar possível de alcançar e potencializar uma eficácia, realizei bastante este exercício, lembrando das situações estressantes com sons gatilho primeiro, para que eu amadurecesse a habilidade de realizar durante uma “crise”.

A parte não engraçada foi a exposição gradual, onde eu, por exemplo, programava algo prazeroso para contrapor as experiências ruins de ter de lidar com situações envolvendo sons gatilhos. Para isso, utilizei do amor incondicional por minha filha Lívia para realizar, com ela, um dos tipos de eventos prazerosos. Até postei uma situação em Setembro de 2017 no grupo Misofonia – Síndrome, onde comecei a ter progresso em lidar com os incômodos (figura 3). Cada vez que eu fazia isso notava que os efeitos negativos dos gatilhos reduziam, mas no início, envolveu muito esforço emocional da minha parte. Tocar piano é prazeroso, mas essa experiência vou deixar para o relato envolvendo Neuro modulação (Neurofeedback para os ansiosos em querer saber logo)

Figura 3 – Relato de melhora da Misofonia

Bom. Foram técnicas que me ajudaram a reduzir a ansiedade antecipatória num primeiro momento,e a raciocinar no lugar de reagir emocionalmente em várias situações com gatilhos e a lidar com pessoas. Nas técnicas da TCC também entram técnicas de respiração que me foram fundamentais. Durante meses eu realizei esses exercícios sem apoio de Terapeuta, mas depois eu quebrei um antigo preconceito e fui a uma Psicóloga Comportamental que me ajudou a aprimorar essas técnicas para o meu caso, pois esse tratamento é individualizado e conforme a letra de certa música:

A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier.

Titãs, 2019

Só atente que o acaso não vai nos proteger, mas é muito bom ficar distraído e não naquela ansiedade antecipatória! Experimente descobri seus pensamentos automáticos e as distorções cognitivas que você carrega e de preferência, desligue-os de você e:

Veja o que acontece com os efeitos da Misofonia em você, depois disso!

CONCLUSÃO

É um processo de ressignificação estruturado!

MAS QUAL FOI A LEITURA SOBRE TCC QUE ME AJUDOU, ANTES DE PROCURAR UM TERAPEUTA?

Os conceitos que apresentei foram justamente a leitura do Capítulo 1 – Princípios básicos da terapia cognitivo comportamental do livro Aprendendo a Terapia Cognitivo-Comportamental: Um Guia Ilustrado (figura 4).

É possível pesquisar na internet e encontrar este capítulo disponível.

E PRA FINALIZAR

Espero ter esclarecido essa parte do meu processo de cura, pois cito a TCC em várias publicações anteriores, tanto no grupo Misofonia – Síndrome quanto aqui no site, pelo Relatos de um(quase) ex-Misofônico e ainda no relato em vídeo, mas eu não havia detalhado como fazê-lo. Eu não abordei, no texto, outros aspectos da TCC para não tornar esta publicação muito extensa. O fundamental é que você procure um(a) Psicólogo(a) especialista em TCC, de preferência em conjunto com um(a) Otorrinolaringologista e Psiquiatra para uma melhor avaliação do teu caso e cada profissional atuando dentro de sua especialidade.

Se eu consegui, tenho certeza que você também pode conseguir!

Referências

WRIGHT, Jesse H; BASCO, Monica R; THASE, Michael E. Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado. Porto Alegre: Artmed, 2008. 224 p.

SENGE, P. A Quinta Disciplina. 15. ed. São Paulo: Best Seller, 2003.

TITÃS. Epitáfio. Disponível em <https://www.letras.mus.br/titas/48968/> . Acesso em 24 de nov. 2019

Relatos de um (quase) ex-misofônico – 1

Duas fotos, dois momentos*

O primeiro momento, à esquerda, estava na apresentação de Natal da turma de Alfabetização, na escola onde iniciei meus estudos. Neste dia estava com febre e com a garganta inflamada. Eram dias que vivenciei uma infância alegre, tranquila e bastante ruidosa, como deveria de ser. 
No segundo momento à direita, já havia se passado pouco mais de quatro meses desde a primeira foto. Estava no pátio externo de minha casa, registrando numa brincadeira, como eu reagia quando assobios me incomodavam. Essa foto foi um registro, cerca de vinte dias, após manifestar sintomas de incômodos auditivos a sons específicos.

Dois momentos: antes e depois da Misofonia

(*) Este texto foi originalmente publicado no Grupo de apoio [Misofonia – Síndrome] (10/04/2019), depois adaptado para o site antigo (18/04/2019) e agora foi readaptado para atualizar alguns detalhes que não constavam nas publicações anteriores.

O início

Em março de 1977, cerca de um mês após completar os sete anos, passei por um procedimento cirúrgico para extração das Amígdalas. Desde muito cedo elas inflamavam com frequência e eu era acometido por episódios de febre de trinta e nove graus (39 ºC), insistentes e que ocasionalmente me causavam um delírio desagradável, como se sentisse o atrito causado pela textura de alguns objetos passando por dentro de minha cabeça.
A cirurgia foi prescrita pelo pediatra que me atendia e realizada no Hospital da Beneficência Portuguesa. Antes da cirurgia, na enfermaria, pude conversar com outra criança que também ia passar pela mesma cirurgia e haviam outras que estavam internadas por diversos motivos. Todos os pais e enfermeiros repetiam que no dia seguinte eu já estaria bem e poderia tomar sorvete. Então entrei na sala de cirurgia e 3 segundos após a anestesia geral, apaguei.
Acordei saindo da sala de cirurgia, com sangue na boca e nariz e passei à noite na enfermaria. No dia seguinte fui pra casa, não conseguia comer nada e todos os sons estavam doendo nos ouvidos…fiquei um mês assim, até que os sons pararam de doer e a inflamação cedeu. Contudo comecei a perceber que em duas situações eu sentia um incômodo: o assobio do meu irmão e um som que eu nunca tinha percebido antes, o de limpar os dentes por sucção ou simplesmente – chupar os dentes.
Outras pessoas que conheci e que também passaram por esta cirurgia, não relatavam um período de recuperação tão complicada. Naquela época, ficavam em casa por um período breve e pronto. Contudo, não conheci ninguém que tomou sorvetes um dia após extrair as amígdalas. Eis aqui uma breve análise sobre como tenho lidado com Misofonia – gatilho a gatilho, considerando as hipóteses que venho estudando e são citadas nos mais diversos estudos acadêmicos sobre Misofonia e é claro, a minha percepção sobre cada gatilho considerando sua evolução em mim desde o início.
Para os estão conhecendo Misofonia agora, Gatilho – é um som específico que inicia, de forma exagerada, as respostas aversivas como angústia, raiva, ódio e outras emoções negativas. Eu nunca cito que é um “barulho”, pois na minha percepção isso confunde com Hiperacusia, que depende mais da intensidade ou da tonalidade do som.

Para saber mais sobre o que é Misofonia


 ⚠️ AVISO – A PARTIR DE AGORA VOU FALAR COM DETALHES SOBRE GATILHOS ⚠️
Algumas pessoas relatam que ao ler sobre determinado gatilho, começam a se sentir incomodados por ele. Então caso você não goste de ler sobre gatilhos pule este texto até o tópico: Minhas considerações.

Os gatilhos

Assobio ou assovio.

Foi o primeiro gatilho que pude perceber. Causa em mim, a aversão descrita nos relatos sobre misofonia, mas também um incômodo físico no ouvido direito. Estou com suspeita de Deiscência no canal superior Direito, ou seja, o canal superior da cóclea entrou no osso do crânio. Como os ossos do crânio também captam ondas sonoras, o assobio pode transmitir vibrações ao dito canal. Fora isso, quando comecei a sentir aversão a assovios, ainda tive meu irmão mais velho assobiando, o que me traumatizou ainda mais, acentuando o sofrimento e me condicionando negativamente, pois emitia um assobio agudo e intenso que ele fazia, achando que eu estava apenas me aproveitando para ter mais “mimos” das pessoas próximas. Isso tudo me torturava muito, mas ele não tinha consciência do que se passava dentro de mim.

Essa experiência negativa com meu irmão é consistente com uma hipótese que fui encontrando em pesquisas, como uma das causas da misofonia: um processo de condicionamento ou um reflexo condicionado a uma situação traumática.

Poderia explicar que em muitos relatos é citado o início dos incômodos durante as refeições, com a família à mesa, principalmente na infância. No meu caso, foi muito traumático, pois a inflamação que se seguiu após a cirurgia causou dores na garganta, ouvido e me fez passar dias na cama, pois qualquer som em qualquer intensidade me incomodava. Depois de um mês o que incomodava eram sons específicos que foram potencializados pelo meu irmão. Aí temos, também, espaço para suspeitar de Estresse Pós-Traumático. Mas eu estava no mundo de 1977… quem poderia diagnosticar isso?

Hoje, Perturbação de estresse pós-traumático (PSPT) (português europeu) ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) (português brasileiro) tem diagnóstico e tratamento e há vários estudos que o relacionam com Misofonia.

A suspeita levantada junto a otorrino que me atende desde 2017 é que a inflamação pós cirúrgica tenha alterado momentaneamente funcionalmente algumas estruturas do ouvido médio e interno e com isso a proteção contra ruídos altos. Pode explicar a Hiperacusia que me afetou cerca de um mês até a inflamação ceder. Pode ainda ter iniciado um comprometimento no canal auditivo superior. 

Sons de mastigação e sugar os dentes

A hipótese que esteja, em mim, relacionada a TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo. O tratamento de TOC com TCC – Terapia Cognitiva Comportamental está diminuindo a percepção e a reação a este gatilho. Observando meu histórico, quando aos sete anos comecei a perceber que sons de chupar dentes me afetava, busquei um livro e comecei a rasga-lo a parte superior de cada folha. O rasgo era proporcional ao incômodo, tipo: chupadas rápidas eu rasgava menos de um centímetro; as “rasgadas mais profundas” eram proporcionais ao som mais prolongado. Curiosamente, em função da numeração das páginas do livro e no ritmo que as pessoas ao meu redor produziam esse gatilho, comecei a contar quantas vezes eu percebia o som gatilho.

Foi o início de contar as “coisas” em outras situações, como os postes que eu via na estrada durante uma viagem ou os passos que eu realizava até um destino. E quando começava, não conseguia parar, ficava numa ansiedade e precisava continuar a contar. Então toda vez que alguém “chupava os dentes”, eu já estava contando e esperando o próximo. Depois comecei a me incomodar com chupar quase tudo, de ossos, sopa a espinhas de peixe e, por último a mastigação de boca aberta.

Vale dizer aqui que antes disso nem percebia que as pessoas chupavam dentes. É como se fosse um som novo no mundo, para mim. O pior é que as pessoas o fazem sem perceber, pois, na maioria das vezes, é automático.

Então no meu caso, para esses gatilhos, as estratégias de lidar com TOC vem diminuindo o incômodo. Atualmente quase não percebo sintomas similares a TOC.

Sons de lixar superfícies

Estes sons não causam aversão como os outros, mas uma sensação que a lixa está atuando no meu tecido esponjoso cerebral. É a única forma que consigo ilustrar (rsss). Claro que isso atrapalha minha atenção. É interessante que esta sensação era similar à que sentia durante os episódios de febre delirante. isso antes da cirurgia e da Misofonia. A febre delirante terminou, mas a Misofonia começou. Esse é o único gatilho que ainda não tenho solução ou tratamento. De repente é um efeito ASMR ultra exagerado. ASMR é a resposta meridiana sensorial autônoma, pois, ao contrário de quem sofre por causa da Misofonia, alguns sentem um prazer “arrepiante” ao ouvir alguns sons, como os de pessoas sussurrando.

Sons percutidos ou batidas de modo geral

Consegui superar esse gatilho com controle emocional de ansiedade e habituação, TCC e Acupuntura. Os sons percutidos que mais frequentemente ouço é o das pessoas batucando nas mesas enquanto trabalham, sons de passos no teto, canetas com ponta retrátil sendo acionadas, teclados, etc… Nenhum deles me afetam mais. Então para este gatilho considero que houve uma “cura” total. 

Barulhos de modo geral

Eu só chamo de barulho um som ou ruído em alto volume. Desde que não sejam nenhum dos gatilhos acima, não me incomodam dentro dos limites que meu sentido da audição pode suportar ou dependendo da atividade que esteja realizando. Ou seja, não sofro de HIPERACUSIA atualmente. De qualquer forma, eu evito ambientes muito ruidosos por muito tempo, para não piorar os problemas auditivos e ser mais um ponto de estresse na hora de reagir a um gatilho. Então não serei encontrado, espontaneamente, em show com caixas acústicas despejando toda a sua potência sonora.

Zumbidos (Tinittus)

Percebo 4 tipos de zumbidos. Dois são constantes. Em um deles parece um som de grilo o tempo todo, mas fica mais evidente quanto mais silencioso estiver o ambiente e o outro é quase um chiado, parecido com Ruído Branco.  Estou tão habituado a eles que quase não os percebo mais. Acredito que a terapia para os sons percutidos tenha me imunizado aos zumbidos presentes “dentro da minha cabeça”. Ainda há mais 2 zumbidos que são esporádicos e os percebo mais no ouvido esquerdo. Eles soam mais como um tom puro e um deles pude comparar com um aplicativo que gera tons com a forma de onda triangular e variam de 4.000 Hz e 6.000Hz. Tenho perda auditiva neurossensorial em 4.000 Hz, conforme as últimas Audiometrias que realizei. 

Eu citei somente esses cinco: Assobio, lixar, mastigação, chupar dentes e percutidos, pois são os que mais sobressaíram em 42 anos convivendo com o problema. Depois de um tempo sofrendo e sem perspectiva de melhorar, fui me tornando irritável a outros estímulos. Sons específicos, pessoas com marcadores linguísticos (ok, ok, né, né, entendeu, entendeu), Sibilâncias (finais de frase com ruído de “S” muito forte) e até situações irritantes diversas, envolvendo lidar com pessoas. Todos esses, ao meu ver, são gatilhos de ‘fundo comportamental’ provocados pelo estresse e distorção causados pelo sofrimento da Misofonia, em quem vivencia o problema. Não é à toa que nos grupos de apoio, há muita irritação relatada contra as pessoas, animais ou objetos que produzem gatilhos. No meu caso, mudanças de atitude e Psicoterapias, independente do conhecimento do terapeuta sobre Misofonia, podem ajudar e até resolver, mas vai depender das habilidades do terapeuta na utilização de várias abordagens, e após descartar a presença de outros problemas médicos ou psiquiátricos. Utilizei bastante os pressupostos da TCC junto com uma terapeuta comportamental e isso me ajudou a reduzir esses episódios de aversão. Para estes gatilhos “comportamentais” considero que estou quase curado. E curado não significa que tolero quando os ouço, mas que quase nem os percebo.

Saiba mais sobre em Psychology Today

Minhas considerações

É possível perceber nos parágrafos acima que para cada gatilho há um abordagem e conduta terapêutica diferente, pois, a Anamnese – que consiste no histórico de todos os sintomas narrados pelo paciente, é distinta para cada um de nós e para cada gatilho. Eu recomendo realizar essa Anamnese com Psicólogo(a) bem qualificado, pois eles têm as ferramentas mais eficientes para te ajudar a determinar o que difere para cada gatilho ao nível de sentimento/emoção e considerando traumas a situações que, às vezes, nem lembramos. Eu fui realizando esta anamnese em paralelo com uma Otorrinolaringologista, pois testes para verificar Níveis de desconforto auditivo, DPAC – Distúrbio de Processamento Auditivo Central complementam e outros possíveis problemas auditivos. Com um(a) Psiquiatra serão abordagens para avaliar outros aspectos de nossa saúde mental, como níveis de depressão, ansiedade, transtornos dissociativos presentes, etc. Com Neurologista podemos verificar algum desequilíbrio químico do nosso cérebro e presença de tumores. Vejam que é uma abordagem multidisciplinar. Tenho lido muitos relatos de Misofônicos nos grupos de apoio, onde eles reclamam do insucesso quando a consulta é direcionada somente a uma especialidade e, principalmente, quando estes profissionais não conhecem ou “nunca ouviram falar” sobre Misofonia.
Eu insisto em dizer que uma abordagem com apenas um profissional pode não ser bem sucedida pois não adiantar tentar resolver, por exemplo, aspectos emocionais e/ou comportamentais com a Terapia Cognitivo comportamental, Hipnose, BrainspottingEMDRNeurofeedback, Acupuntura e outros tratamentos válidos, se há a possibilidade de haver algum tipo de desequilíbrio químico no cérebro, ou outros transtornos médicos, fonoaudiológicos ou psiquiátricos, agindo em conjunto. Lembrando que a relação entre Misofonia e estes ainda é desconhecida.

Posto isso, vou completar que já tive situações extremas de ser incomodado, ter ódio, querer o mal de quem produzia sons, principalmente entre os meus 20 e 30 anos de vida, mas entendi depois que – reverberar o ódio e intolerância, independentemente de ser por causa da Misofonia ou do mundo, não ajuda, só piora os sintomas com o tempo. Sou agradecido por amadurecer com esta compreensão.
Não sou nenhum ser especial, apenas lutei e luto contra a Misofonia e não contra os sons. Contudo, nada impede que tenhamos que tomar medidas protetivas/preventivas se outros abusam do sossego alheio. O problema é quando essas medidas são a estratégia principal pois – o mundo não vai ser mais silencioso, pelo contrário.
Então além das medidas protetivas, medidas de tratamento da raiz de tudo – MISOFONIA – precisam ser levadas à sério.
Vou desenvolver estas considerações nas próximas publicações, onde vou mostrar todo o processo e o caminho que segui até chegar aqui e espero que este texto te traga novas luzes sobre como enfrentar Misofonia gatilho a gatilho. Eu torço para que todos possam tratar os problemas com a vida e com a Misofonia. 

E agora, assuntos para os próximos capítulos

Após o texto ser publicado no grupo apoio e um pouco antes de fazê-lo no site antigo (18/04/2019) , iniciei um tratamento novo. Na primeira sessão, o som de um assobio não me afetou. Na segunda sessão a terapeuta mastigou, sem perceber, um doce e eu nem me incomodei. Na terceira sessão deixei, por alguns minutos, de perceber o zumbido (chiado e grilos). E tudo isso nas primeiras sessões pois estava no início deste novo tratamento.
Trata-se do Protocolo PS para o Tratamento da Misofonia com Terapia EMDR, desenvolvido pela Psicóloga Patrícia Santana. Este protocolo segue as 8 etapas da Terapia EMDR, mas são direcionadas para a Misofonia. Na publicação original eu estava na segunda Etapa. Até a publicação deste texto neste site novo já experimento semanas sem que nenhum, MAS NENHUM, gatilho me afete com relação aos sintomas de Misofonia, como afetavam antes. O assobio – o pior dos gatilhos em mim, não me afeta mais. Ainda tenho que tratar o incômodo auditivo que descrevi no tópico Os Gatilhos, mais acima.

Publicado em 19/05/2019 no Grupo Misofonia – Síndrome, comemorando minha ida ao Circo

Aos 21 dias sem Misofonia, publiquei no grupo de apoio um texto comemorando minha ida ao Circo com minha família. Naquele local todos os gatilhos possíveis e inimagináveis estavam presentes e nem me afetaram. Então, creio que estou no caminho certo. Os detalhes irei revelando nas próximas postagens, mas não difere das atitudes que venho tomando e que facilitam o uso dessas terapias, como expliquei anteriormente.

Também vai ficar para outra postagem, o processo de dessensibilização dos gatilhos percutidos que realizei, conforme citei nesta publicação.

Então aguardem os próximos capítulos.

Coragem! Vamos vencer a Misofonia.