Estudantes divulgam sobre Misofonia

Exposição sobre a Misofonia

Nos dias de 27 a 29 de novembro, alunos apresentaram um trabalho de divulgação sobre Misofonia em evento cultural. São 18 alunos do 7º ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio São Raimundo Nonato, em Santarém, estado do Pará. Eles participaram do XXVI Passo Cultural apresentando o trabalho MISOFONIA: SÍNDROME DA AUDIÇÃO SUPERSENSÍVEL – CONHECER E RESPEITAR

Tudo começou meses há 6 meses atrás, quando Mirian Rodrigues que apresenta os sintomas de Misofonia e Hiperacusia, desejou participar da Divulgação da Misofonia. Então ela entrou em contato com a nossa Associação e com a Dra. Tanit Ganz Sanchez, idealizadora do Novembro Laranja – Campanha Nacional de Divulgação sobre Zumbido, Misofonia e Hiperacusia, onde pudemos trocar ideias de como ela poderia ajudar em nossas campanhas na cidade de Santarém.

Mirian procurou a secretaria Municipal de Saúde e de Educação, mas foi na recepção da clínica, onde ela realiza psicoterapia, que é parte do tratamento para os sintomas de Misofonia e Hiperacusia, que conheceu a professora Gracinês Costa. A professora leciona na escola São Raimundo Nonato, a mesma onde Mirian estudou na infância e início da adolescência. Mirian relata que:

Eu gosto de falar das sensibilidades a professores pois estes podem ser o primeiro olhar para identificar crianças portadoras destes problemas

Por coincidência, Gracinês também foi professora da psicoterapeuta que atendia Mirian. Então foi através das duas que a professora ficou sabendo sobre Misofonia e Hiperacusia.

A professora achou o tema interessante, levou-o para seus alunos que então decidiram desenvolver um trabalho sobre misofonia e apresentá-lo no Passo Cultural, evento realizado anualmente na escola. Os alunos realizaram uma entrevista com Mirian com diversas perguntas sobre como ela lidava com o problema. Eis algumas que destacamos:

  • Como foi o diagnóstico?
  • Sofreu algum tipo de bullying?
  • Que tratamento você faz?
  • Qual sua reação quando é vista como anti-social?
  • Como você realiza suas atividades em ambientes com várias pessoas?
Mirian (ao centro), Gracinês (mais a esquerda) e os alunos do 7º ano no dia da entrevista

Mirian relata que ficou emocionada com o respeito e consideração demonstrados e no grande esforço de não produzirem ruídos de baixo volume (mastigação, assobio) que pudessem desencadear nela, as reações emocionais negativas, um dos sintomas da Misofonia assim como não produziram ruídos intensos (gritos, correrias no piso) que pudessem causar desconforto auditivo e são um dos sintomas da Hiperacusia. Os alunos posteriormente também entrevistaram a psicoterapeuta para entender o papel desta no tratamento da Misofonia.

Por outra feliz coincidência a data do evento Passo Cultural coincidiu com os últimos de campanha do Novembro Laranja.

Para este evento , foi montado uma apresentação sobre Misofonia dentro dentro de um Toldo Exposição. Um painel explicativo também foi elaborado. O resultado pode ser visto nas fotos abaixo:

Graças aos esforços de pessoas como Mirian, da professora Gracinês e seus alunos, várias pessoas entre alunos, pais e professores puderam conhecer e divulgar sobre Misofonia. Temos esperança que mais escolas e instituições abracem causa e a divulguem Misofonia ainda mais

Todos os que sofrem por causa da Misofonia agradecem!

Como a TCC – Terapia Cognitivo Comportamental alavancou meu processo de cura

Terapia Cognitiva é um sistema de psicoterapia, proposto e desenvolvido pelo Dr. Aaron Beck e seus colaboradores, que integra um modelo cognitivo de psicopatologia e um conjunto de técnicas e estratégias terapêuticas baseadas diretamente nesse modelo. Características que a distinguem de outras formas de psicoterapia são o tempo curto e limitado e a eficácia comprovada através de estudos empíricos, em várias áreas de transtornos emocionais, como depressão, transtornos de ansiedade (transtorno de ansiedade generalizada, fobias, pânico, hipocondria, transtorno obsessivo-compulsivo), dependência química, transtornos alimentares, dificuldades interpessoais (terapia de casal e de família), transtornos psiquiátricos, etc., para adultos, crianças e adolescentes.

(uma versão reduzida deste texto foi publicado no grupo de apoio do Facebook – Misofonia – Síndrome em 25/11/2019)

Dois princípios da TCC foram fundamentais para que eu mudasse minhas atitudes e estratégias e com isso, fosse reduzindo progressivamente, em mim, os efeitos da Misofonia.

Como fui ajudado:

1 – PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS

Estamos constantemente avaliando e julgando e assimilando tudo que nos acontece como, por exemplo, eventos estressantes, percepções, sensações corporais e a memória destes, para determinar o que é importante ou não para nós. Esse processo chamamos de –aprendizado cognitivo– que nos causa emoções e vamos reagindo e nos comportando de acordo com o que assimilamos. Mas nós também passamos a reagir a novos eventos ou na repetição destes e já com o aprendizado anterior, realimentando de uma forma que nem percebemos e que passam a reforçar o efeito das emoções e comportamentos. Ocorre que temos um grande número de pensamentos que fazem parte desse fluxo de processamento e que surgem de forma tão rápida que nem os percebemos e eles atuam neste processo de aprendizado cognitivo, à medida que vamos avaliando o significado dos acontecimentos.

Em pessoas com algum tipo de transtorno psiquiátrico com depressão ou ansiedade, frequentemente vivenciam inundações de pensamentos automáticos que são desadaptativos ou distorcidos e podem gerar reações emocionais dolorosas e comportamento disfuncional.

2 – ERROS COGNITIVOS OU DISTORÇÕES COGNITIVAS

Existem equívocos na lógica dos pensamentos automáticos e outras cognições e esses equívocos podem (e vão) acontecer em todas as pessoas, mas nas com transtornos emocionais, são mais característicos. Estes precisam ser identificados pois atuam de forma patológica no processamento de informações, de forma desadaptativa ou distorcida.

Vou citar algumas distorções que podemos vivenciar e que estavam presentes no meu dia a dia, na forma que eu lidava com a Misofonia:

Abstração Seletiva

Chega-se a uma conclusão depois de examinar apenas uma pequena porção das informações disponíveis. Os dados importantes são descartados ou ignorados, a fim de confirmar a visão tendenciosa que a pessoa tem da situação.

No meu caso, não importava o motivo das pessoas, sempre achava que elas queriam me prejudicar ou me desprezavam ou que não me respeitavam, então eu as odiava quando produziam sons que me afetavam.

Maximização e minimização

A relevância de um atributo, evento ou sensação é exagerada ou minimizada.

No meu caso, sofria antecipadamente os efeitos da Misofonia antes mesmo de alguém produzir os sons, só ao vê-la segurando algum alimento ou realizando visualmente o ato de mastigar eu já ficava alterado.

Supergeneralização

Chega-se a uma conclusão sobre um acontecimento isolado e, então, a conclusão é estendida de maneira ilógica a amplas áreas do funcionamento.

No meu caso, eu assumi que todas as pessoas que realizavam trabalhos braçais assobiavam, portanto eu tinha que evitar ou combater a presença delas próximo de mim e não ser amigável com essas pessoas, mesmo que elas nem assobiassem.

EIS COMO A TCC ME AJUDOU

Quando iniciei o estudo da TCC encontrei o modelo básico da Terapia cognitivo-comportamental (figura 1) que pode ser comparado com um tipo de Diagrama Sistêmico (SENGE, 2003) que propus para representar um Modelo Dinâmico da Misofonia, baseado na minha própria experiência, utilizando um causal loop diagram (figura 2). O diagrama sugere que depois de iniciada a Misofonia, eu entrava num ciclo onde cada vez mais meus sintomas pioravam por causa da forma como eu enfrentava os sintomas, direcionando todos os sentimentos negativos contra quem os produzia.

É um diagrama experimental que captura a percepção que tenho sobre a evolução da Misofonia na minha história de vida. Eu cheguei a publicar este diagrama no grupo de apoio Misofonia – Síndrome com o título Ciclo da Misofonia que piora com o tempo.

Modelo cognitivo-comportamental básico
Figura 1 -Modelo cognitivo-comportamental básico
Figura 2 -  causal loop diagram  proposto 
para um Modelo Dinâmico da Misofonia em mim
Figura 2 – causal loop diagram proposto
para um Modelo Dinâmico da Misofonia,
conforme fui percebendo em mim

Então com o conhecimento de TCC e o autoconhecimento que fui amadurecendo sobre os efeitos da Misofonia em mim, fui me aprofundando em como utilizar métodos de TCC para me ajudar.

“Ao implementar métodos de TCC para reduzir erros cognitivos, os terapeutas normalmente ensinam os pacientes que o objetivo mais importante é simplesmente reconhecer que se está cometendo erros cognitivos”

(…)

“Algumas das intervenções mais importantes que você aprenderá são ativação comportamental, exposição hierárquica (dessensibilização sistemática), prescrição gradual de tarefas, programação de atividades e eventos prazerosos, treinamento de respiração e treinamento de relaxamento. Essas técnicas podem servir como ferramentas poderosas para ajudar a reduzir sintomas e promover mudanças positivas.”

Jesse H. Wright, Monica R. Basco & Michael E. Thase, 2008


Então passei a identificar esses pensamentos automáticos. No início foi estranho e até engraçado pois eu parava para “pensar o que estava pensando” em diversas situações para identificar não só as 3 distorções citadas acima, mas várias outras. Fazer isso logo após ser afetado por um som gatilho não é fácil, mas é possível. Para tornar possível de alcançar e potencializar uma eficácia, realizei bastante este exercício, lembrando das situações estressantes com sons gatilho primeiro, para que eu amadurecesse a habilidade de realizar durante uma “crise”.

A parte não engraçada foi a exposição gradual, onde eu, por exemplo, programava algo prazeroso para contrapor as experiências ruins de ter de lidar com situações envolvendo sons gatilhos. Para isso, utilizei do amor incondicional por minha filha Lívia para realizar, com ela, um dos tipos de eventos prazerosos. Até postei uma situação em Setembro de 2017 no grupo Misofonia – Síndrome, onde comecei a ter progresso em lidar com os incômodos (figura 3). Cada vez que eu fazia isso notava que os efeitos negativos dos gatilhos reduziam, mas no início, envolveu muito esforço emocional da minha parte. Tocar piano é prazeroso, mas essa experiência vou deixar para o relato envolvendo Neuro modulação (Neurofeedback para os ansiosos em querer saber logo)

Figura 3 – Relato de melhora da Misofonia

Bom. Foram técnicas que me ajudaram a reduzir a ansiedade antecipatória num primeiro momento,e a raciocinar no lugar de reagir emocionalmente em várias situações com gatilhos e a lidar com pessoas. Nas técnicas da TCC também entram técnicas de respiração que me foram fundamentais. Durante meses eu realizei esses exercícios sem apoio de Terapeuta, mas depois eu quebrei um antigo preconceito e fui a uma Psicóloga Comportamental que me ajudou a aprimorar essas técnicas para o meu caso, pois esse tratamento é individualizado e conforme a letra de certa música:

A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier.

Titãs, 2019

Só atente que o acaso não vai nos proteger, mas é muito bom ficar distraído e não naquela ansiedade antecipatória! Experimente descobri seus pensamentos automáticos e as distorções cognitivas que você carrega e de preferência, desligue-os de você e:

Veja o que acontece com os efeitos da Misofonia em você, depois disso!

CONCLUSÃO

É um processo de ressignificação estruturado!

MAS QUAL FOI A LEITURA SOBRE TCC QUE ME AJUDOU, ANTES DE PROCURAR UM TERAPEUTA?

Os conceitos que apresentei foram justamente a leitura do Capítulo 1 – Princípios básicos da terapia cognitivo comportamental do livro Aprendendo a Terapia Cognitivo-Comportamental: Um Guia Ilustrado (figura 4).

É possível pesquisar na internet e encontrar este capítulo disponível.

E PRA FINALIZAR

Espero ter esclarecido essa parte do meu processo de cura, pois cito a TCC em várias publicações anteriores, tanto no grupo Misofonia – Síndrome quanto aqui no site, pelo Relatos de um(quase) ex-Misofônico e ainda no relato em vídeo, mas eu não havia detalhado como fazê-lo. Eu não abordei, no texto, outros aspectos da TCC para não tornar esta publicação muito extensa. O fundamental é que você procure um(a) Psicólogo(a) especialista em TCC, de preferência em conjunto com um(a) Otorrinolaringologista e Psiquiatra para uma melhor avaliação do teu caso e cada profissional atuando dentro de sua especialidade.

Se eu consegui, tenho certeza que você também pode conseguir!

Referências

WRIGHT, Jesse H; BASCO, Monica R; THASE, Michael E. Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado. Porto Alegre: Artmed, 2008. 224 p.

SENGE, P. A Quinta Disciplina. 15. ed. São Paulo: Best Seller, 2003.

TITÃS. Epitáfio. Disponível em <https://www.letras.mus.br/titas/48968/> . Acesso em 24 de nov. 2019